sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A DESTRUIDORA VERTIGEM DIGITAL - POR PADRE LENILSON


A verdade é aquilo que se é. Jesus disse “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Assim falou porque quando Deus se revelou pela primeira vez simplesmente disse a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU” (Êxodo 3,14). Na sociedade atual as pessoas não são o que são, mas o que aparentam ser, o que desejariam ser. Não é novidade que o próprio termo latino “persona” indica na psicologia a “mascara” ou o papel que se assume na sociedade. A princípio não é uma questão de culpa, no sentido de “fingimento” e sim o comportamento que por diversos fatores familiares e sociais o sujeito vai assumindo no seu meio. Neste sentido, só as crianças em tenra idade não usam máscaras. Todos as usamos porque não somos capazes de, como Deus, revelar a essência o tempo todo. Nunca houve nem haverá outro caminho para o homem: para viver em sociedade é indispensável constituir seu próprio papel, sua “personalidade”, enfim, sua identidade real e marcada por luzes e sombras. O perigo é quando a “persona” não se aproxima da verdade, é algo falsificado e mentiroso. Eis o problema da “vertigem digital”. Por vertigem digital entenda-se a ansiedade e o impulso desordenado por acompanhar, curtir, postar e revelar sua pessoa nas redes sociais causando uma enorme perda de tempo, a dependência da internet e a sensação de que: “quem não se exibe não existe!”.

Basicamente, na última década começou a se formar uma nova cultura de massa. Se antes as telenovelas, os programas de rádio e as revistas de fofocas ocupavam as pessoas para se informarem sobre a “vida dos famosos”, hoje cada um faz-se famoso graças ao alcance das redes sociais. Houve uma espécie de popularização da “famosidade” assim como um acesso mais imediato as notícias, opiniões e também fugacidades.  A tão cantada “liberdade liberdade...” não está nem perto de se realizar ao contrário do que se propaga com o chavão do “fórum digital” ou “globalização do conhecimento”. As notícias continuam a serem manipuladas pela grande mídia, por muitos blogs submissos ou comprados e a maioria da população direcionada pelo poder hipnotizador das redes sociais. Publique-se um texto de 15 linhas sobre um tema relevante que a indiferença é sinalizada por umas minguadas curtidinhas, compartilhe uma foto da coisa mais corriqueira do seu dia e o celular não vai parar de dar aquele assovio que lhe estimula a continuar a “comer” o que nunca vai lhe saciar. No livro #vertigemdigital (escrito assim mesmo) o escritor Andrew Keen mostra o quanto o que parece ser sinal de liberdade torna-se meio para um controle da população infimamente superior a todas as épocas porque agora a privacidade já não existe. Empresas mundiais compram as informações e sabem muito mais de nós que nós mesmos, e pelas “maravilhosas redes” influenciam diretamente as tendências, os costumes e o consumo. A força hipnótica e alienadora chega também a vida concreta quando muitas pessoas tem suas vidas e dignidade destruídas pela velocidade de propagação das mentiras, calúnias e suposições. Além disso, a banalização da morte é o primeiro prato do dia. Há quem prefira tirar uma foto ou até uma selfie da última agonia da vítima de acidente a usar seu celular para chamar a urgência. Tudo isto é invenção do demônio? Certamente não, é do homem mesmo! Contudo, o grande problema é que ainda somos incapazes de discernir e fazer escolhas diferentes uma vez que se renova a cada dia a observação de Jesus: “os filhos das trevas são mais prudentes/espertos que os filhos da luz” (Lucas 16, 8).


Pe. José Lenilson de Morais
Pároco da Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim – São José de Mipibu/RN

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