sábado, 18 de julho de 2015

HOMILIA DA I NOITE DO NOVENÁRIO DA FESTA DOS PADROEIROS 2015

“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 12, 7)
Amados todos em nosso Senhor Jesus Cristo,
Estamos muito felizes por participar deste “grande retiro espiritual” que é o novenário de nossos excelsos padroeiros Sant’Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e, naturalmente, avós de Nosso Salvador Jesus Cristo. Só esta consideração já nos coloca diante de uma grande verdade histórica e de fé, a saber: Jesus se encarna e vive num contesto de família. A família é a primeira opção preferencial de Jesus. Nos nossos dias a família humana e cristã passa por crises, dilemas e chagas que afetam todo o tecido social, inclusive a Igreja, mas também é bombardeada ou negligenciada nas instancias políticas, educativas, midiáticas e culturais. A própria Paróquia vem buscando viver uma renovação bem profunda para melhor responder às urgentes questões em torno desta célula primordial da sociedade. É neste contesto que a nossa festa abraça o tema da “Paróquia: lugar do discipulado e da missão; do encontro, da justiça e da paz”. Nesta noite cabe a mim realizar uma espécie de “prefácio” a este amplo tema que esperamos ser bem desenvolvido pelos próximos pregadores.

O que é uma Paróquia? Será que a paróquia é somente esta bela matriz? Ou sua estrutura física e administrativa? Certamente nós já aprendemos muito nos últimos anos – principalmente a partir da Conferencia de Aparecida – que a Paróquia é uma realidade viva e dinâmica. Parafraseando Jesus no Evangelho de hoje diríamos: “a Paróquia é maior do que o templo”; e em outra passagem: “a Paróquia foi feita para o homem, e não o homem para a Paróquia”. Esta é segundo o Direito canônico e o Catecismo da Igreja católica: “uma determinada comunidade de fiéis, constituída de maneira estável na Igreja Particular (Diocese) e seu cuidado pastoral é confiado ao Pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano” (CIC 2179). Os nossos bispos no documento 100 da CNBB – bem conhecido pelos agentes pastorais – dizem com clareza e simplicidade: A paróquia é a comunidade das comunidades, sendo o lugar privilegiado da “união íntima e comunhão das pessoas entre si e delas com Deus Trindade” (n. 168). Portanto, a paróquia é lugar de encontro, não é lugar de divisão . Todas as comunidades deste Município pertencem a mesma e única Paróquia; todos os grupos, pastorais, movimentos, associações religiosas e serviços que trazem o nome ou a inspiração “católica” pertencem e são a Paróquia de Sant’Ana e S. Joaquim, e necessitam assumir seu Plano missionário pastoral. Na verdade, quando assumimos o discipulado e a missão é que somos a “Paróquia: comunidade das comunidades.” Só é paróquia quem é discípulo e missionário de Jesus .
A Paróquia, isto é o povo – que é de Deus – neste Município necessita ter um rosto. Enquanto Igreja, que rosto queremos ter? Um rosto de máscara? Ou o rosto de Jesus: justo e misericordioso? Muitos passos já foram dados para a nossa libertação de uma máscara de religiosidade, mas precisamos continuar avançando. No quesito justiça, Jesus combateu toda espécie de hipocrisia, corrupção, conluios, soberba, exploração; e justamente por isto ele foi o primeiro, na Nova Aliança, a “ter fome e sede de justiça”, o primeiro a ser “perseguido por causa da justiça”, como sugere o lema de nossa Festa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,6.10).
Seguindo o exemplo de Jesus, o Magistério Eclesiástico nos diz no Catecismo da Igreja Católica (retomando o Vaticano II, GS,76) que: faz parte de missão da Igreja “emitir juízo moral sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas” (CIC 2246). Falando de modo mais claro ainda o Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho”, disse: “Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso usufruto’ (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum” (n.182). Portanto, Jesus quer salvar o homem todo e todos os homens.
“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 12, 7). Em Jesus Cristo, a própria justiça é sinal de sua misericórdia, pois tem em vista a conversão de todos nós pecadores e ainda mais dos corruptos acostumados em seus pecados. É simples assim: se alguém se arrepende sinceramente, Deus o justifica, Deus o perdoa pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Foi o que o Papa Francisco recordou na Missa de Corpus Christi deste ano: “Jesus derramou o seu Sangue como preço e lavacro, para que nós fôssemos purificados de todos os nossos pecados: para não nos aviltarmos, fixemos o nosso olhar nele, saciemo-nos na sua fonte, a fim de sermos preservados do risco da corrupção. E então experimentaremos a graça de uma transformação: seremos sempre pobres pecadores, mas o Sangue de Cristo libertar-nos-á dos nossos pecados, restituir-nos-á a nossa dignidade. Livrar-nos-á da corrupção”. Poderíamos rezar assim: Jesus, nesta Festa, quero me encontrar com a tua misericórdia.
De fato, meus amados irmãos e irmãs, a Festa dos Padroeiros é um tempo especial para suplicarmos a graça da conversão, a graça de sermos mais cristãos, a graça de refletirmos as atitudes de Jesus. São João Paulo II gostava de dizer em tempos de guerra ou de tensão entre povos e nações: “Não há justiça sem perdão”. A justiça sem perdão é vingança, mas também a misericórdia sem justiça é conivência. Peçamos a Deus a graça de um sábio equilíbrio, e se for para desequilibrar a balança que seja sempre em favor do bem do outro, sempre para ver algo de bom nos outros, pois lembremo-nos duas advertências da Palavra de Deus: “Com a mesma medida com que medirdes os outros, vós sereis medidos” (Mt 7,2) e, “o julgamento vai ser sem misericórdia para que não usou de misericórdia, a misericórdia, porém, triunfa sobre o juízo” (Tg 2,12). Seria muito bom lemos toda a carta de São Tiago, durante este período da Festa para entendermos o equilíbrio ente justiça e misericórdia, entre fé e obras. É isto que gera a paz numa sociedade. A paz não vem pelas armas nem pelos linchamentos de seres humanos amarrados a postes. A paz é fruto da justiça pessoal e social, e a justiça só é completa se é acompanhada da misericórdia, isto é, do reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana.
Para concluir, lembro-me de uma frase dita por D. Heitor em uma de suas visitas ao Seminário Menor: “Não se espantem ao verem notícias de coisas horríveis feitas pelos homens. Sem a graça de Deus poderíamos cometer os maiores crimes”.
Retomemos, então, a questão inicial: o que é uma Paróquia? Qual o rosto que queremos para a nossa Paróquia? O que estamos fazendo para renovar nossa Paróquia? Como queremos ser tratados e como tratamos os outros na Paróquia? Como vivo a comunhão na Paróquia? Como pratico a justiça e a misericórdia? Olhemos para a cruz e o Crucificado-Ressuscitado nos falará. Olhemos para Jesus e deixemos que ele nos olhe. Amemos a Jesus, pois só ele nos dará a graça do amor ao próximo sem fingimento. Assim seja!


Pe. José Lenilson de Morais
Vigário Paroquial
São José de Mipibu, 17 de julho de 2015

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