quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A AUTORIDADE E O PODER



A relação entre a autoridade e o poder sempre foi transversal na história do pensamento político. Nunca conseguimos falar sobre uma sem, positiva ou negativamente, fazermos referência ao outro. Ela sempre esteve no centro da experiência comunitária no decorrer das Eras. Talvez, porque seja a composição que mais diga dos seres humanos o que eles são como animal político, como já o afirmara o velho Aristóteles. Cabe afirmar que a consecução da sinfonia entre ambos é uma arte e, por isso, a reflexão sobre a identidade política seja permanente e contínua. Infelizmente, quem mais deseja possuir esta força, na maioria das vezes não a usa com dignidade.
Talvez, para alguns, pareça estranho, mas a base que postarei para esta breve e atual reflexão é um texto do evangelista João que narra no seu evangelho (19,11) a fala de Jesus, quando Ele afirma que Pilatos “não teria nenhuma autoridade sobre Ele se esta não lhe fosse dada por Deus”. Vejamos que aqui autoridade se confunde com poder. O representante do César tinha como condenar ou absolver Jesus. Numa discussão puramente política e temporal podemos nos deixar envolver pela armadilha de que quem tem o poder tem a autoridade. Esta tendência não é evangélica, nem muito menos cristã. Numa teologia política da ação de Deus na história humana, quem tem o poder deve ter autoridade e vice versa. Mas na política dos homens, nem todo aquele que tem poder tem autoridade. Jesus no seu confronto com os herodianos nos diz em síntese que existe uma diferença no comportamento de quem tem o poder e quem tem a autoridade, quando diz que “devemos dar a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Ainda, diz que o Seu reino não deste mundo (Jo 18,36). Santo Agostinho interpretou magistralmente esta diferença quando escreveu a Cidade de Deus. A autoridade substancia o poder. Ela é a alma do poder. Este sem a primeira se sustenta pela força que violenta, denigre e mata. A autoridade gera, mobiliza e garante a vida. Na modernidade houve a perda desta conexão. O paradigma metodológico não é mais a conversão, mas a revolução. A história não é mais dinâmica por causa da mudança interior; e sim pela violência exterior. A concepção de que o homem é lobo do outro homem, dinamiza as relações de controle. O outro não é mais meu irmão. Ele é objeto instrumental para que um outro seja fortalecido.
Os nossos contextos políticos são fortemente marcados por esta velha política. O fim desta é o poder; não o bem do outro. Esta concepção a torna algo sem moral. Nela, os fins justificam os meios. Quem tem o poder corrompe e é corrompido, mata, persegue, ofende a dignidade dos semelhantes, é perverso. Ele tem poder, mas não tem autoridade. O pior: O povo está insensível a estas práticas e está sendo conivente com este tipo de delinquentes, pois os confirma nos momentos de julgamento. Ainda diz: “Ele rouba, mas faz”. Isto não pode ser autenticado pelo povo. A integração entre a autoritas e potestas é uma urgência que pode nos dizer quando existe, deveras, uma autêntica e sadia democracia.
Por fim, podemos dizer que Autoridade é aquele que usa o poder para servir, com ética e consciência dos deveres junto ao Povo. Esta promove a vida e a dignidade daqueles que são seus semelhantes. Quando é Cristão tem que meditar as atitudes de Jesus no Lava Pés (Jo 13,14-17), que é Modelo para todos nós. Que estejamos inquietos e atentos para que possamos perceber quem está usando o poder, com autoridade, para praticar o bem e a justiça. Assim o seja!


 
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu e Vigário Episcopal da Arquidiocese de Natal









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