sábado, 19 de julho de 2014

FÉ INFANTILIZADA

O que determina a identidade cristã é a fé em Jesus Cristo. Não existe cristão sem a adesão à pessoa do Filho de Deus. Não há quem pense em ser cristão que possa fugir desta prerrogativa. Ela determina a existência cristã, que consiste na relação subjetiva e objetiva da pessoa com o Senhor. É uma comunhão integrante e integradora da pessoa. Não há bipolaridade. Não há contradição. A base é o coração que ama para poder permanecer em Deus (1Jo 4,8.16). Por isso que o cristão não é quem revoluciona de fora para dentro, mas que se converte de dentro para fora. Nos falta a retomada desta convicção. Precisamos desta clareza de ideia, da retomada ao essencial do que é próprio do cristianismo.

O apóstolo Paulo afirma aos irmãos de Corinto que “quando era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança” (Cf. 1Cor 13,11). O cristão autenticado pela conversão a Cristo, não tem uma fé infantilizada. Isto não exclui o processo dialético e permanente da chamada de Jesus à mudança. Convertei-vos e crede no evangelho! (Cf. Mc 1,15). Mas vejamos que não existe conversão sem fé e fé sem conversão. Historicamente este conteúdo foi sendo perdido. Como a subjetividade, a fé da pessoa é dinâmica, porém exige o conteúdo transformador, porque está alicerçada na pessoa de Jesus Cristo. Talvez que, mais pela reviravolta antropológica da modernidade, do que pela própria realidade eclesial, estejamos sentindo a necessidade de retomar o caminho para a verdade.

A Igreja correu para o periférico e deixou o essencial. Essa preocupação não é estratégica, mas real e universal. Não é o geográfico, mas é o eterno que deve ser valorizado. O evangelista João é quem melhor nos apresenta, na sua teologia, como acontece esta interação no coração humano, sem esquecer da cristologia total do Novo Testamento, a qual contempla o Jesus pré e pós-pascal. Diante disto, precisamos aprofundar a nossa espiritualidade cristã! Ela fugiu de Cristo e nos aprisionou num infantilismo da fé. Percebemos esta forma eclesial confusa da fé em algumas comunidades, que mesmo sem o saberem, estão nesta teia imatura da vida cristã. O Papa Francisco está muito ciente deste problema teológico, que, infelizmente, tornou-se um dilema eclesial. Por isso, que há uma constatação ferrenha, principalmente na evangelização da América Latina, de que existiu muita sacramentalização e pouca evangelização desde os primórdios. A intenção não é entrar numa lógica pessimista. O intento é provocar para que pensemos o que significa o “ser e existir” cristão. Temos que encarar a questão para avançarmos na mística cristã e, consequentemente, eclesial. A sacralidade eclesial, na pós-modernidade, dependerá deste enfrentamento. Não é do bem contra o mal, mas da espiritualidade cristã encarnada na vida dos cristãos que serão sal da terra e luz do Mundo (Cf. Mt 5,13-14).

Vejamos que, historicamente, a vida da Igreja sempre dependeu do testemunho dos santos e mártires. Estes fizeram sempre a opção fundamental pela pessoa de Jesus Cristo. Os cristãos não podem perder o encantamento pela santidade. Tenhamos cuidado com a armadilha do relativismo, ou dizer dela o que não é! O Papa Francisco está constantemente a nos falar dum “mundanismo espiritual”, o qual nos distancia do enamoramento de Deus. Existe um problema na espiritualidade cristã que precisa ser sanado, presente em muitos agrupamentos eclesiais. As estruturas são necessárias para facilitar o anúncio do evangelho, mas, por causa do seu mau uso e motivações da condição humana que é pecadora, sufocam em tantas situações o encontro com a pessoa do Divino Mestre. 
Por fim, a experiência mística do apóstolo Paulo, dos santos e mártires, é muito importante para que, nós cristão, saiamos do nosso infantilismo da fé e espiritual. Vamos redescobrir, juntos e eclesialmente, o que significa o “ser e existir cristão”. Estejamos preparados para o que é de Jesus Cristo e suas implicações, que cada um é chamado a descobrir através do contato com a Sua Palavra, a beleza da nossa fé, e fazendo do nosso testemunho a alegria do coração daqueles que não creem. Assim o seja!


 
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu-RN e Vigário Episcopal Sul da Arquidiocese de Natal.

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