segunda-feira, 28 de julho de 2014

A REVOLUÇÃO PELA CONVERSÃO


O tema da conversão sempre foi fundamental para o cristianismo. Não nos tornamos cristãos sem conversão. É o primeiro convite feito por Jesus Cristo para aqueles que querem segui-Lo. “Convertei-vos e Crede no evangelho, pois o Reino de Deus está próximo” (Ev. Mc 1,15). Não podemos dizer que é um tema específico do cristianismo, mas, como cristãos, podemos dizer que com os eventos da Encarnação e Páscoa do Filho de Deus há uma qualificação desta temática. Ela, para o cristianismo, implica a fé na presença do Reino de Deus; pois Ele está próximo. Se acompanharmos o caminho ministerial de Jesus, compreenderemos que este Reino identifica-se com a Sua pessoa. Neste sentido, o que é peculiar da espiritualidade do evangelista João, complementa o que é teológico dos evangelhos sinóticos, quando caracteriza que a conversão e reconhecimento do Senhor é fruto do encontro pessoal, íntimo e amoroso com a pessoa do Senhor (Ev. Jo 20,18). As propostas evangélicas mostram que, pela fé e pelo amor, o histórico e o eterno de Deus são um; e mostram que o convite à mudança (metanoia) é constante, pessoal e vital para todos os Seus filhos. 
A conversão, como gera uma mudança pessoal, também gera transformação comunitária. O que é vivido pela pessoa tem repercussão social. Aqui entra a questão da revolução. Ela tem uma relação complementar ou dialética com a conversão. Em ambas existe uma tensão espiritual. O filósofo Michel Foucault analisando o desenrolar histórico sobre a conversão afirma que “não pode haver verdade sem uma conversão ou sem uma transformação do sujeito. (...) Essa verdade leva à ideia de uma posição de classe, de efeito de partido, o pertencimento a um grupo, a uma escola, a iniciação, a formação do analista, etc., tudo nos remete às questões da condição de formação do sujeito para o acesso à verdade, pensadas, porém, em termos sociais, em termos de organização. Não são pensadas no recorte histórico da existência da espiritualidade e de suas exigências” (Cf. Hermenêutica do sujeito). A ideia espiritual continua, mas o conteúdo que possibilita a mudança é diferente. A verdade pensada pelo filósofo não é a mesma revelada pelo cristianismo. Esta é fruto da fé e do amor na e à pessoa de Jesus de Nazaré, que é o Senhor. Ele é o caminho, a verdade e a vida (Ev. Jo 14,6). Essa não é condicionada, mas condiciona porque o seu conteúdo é único, universal e eterno. Essa forma espiritual cristã de conversão determina a revolução, porque transforma o sujeito que a aceita pela fé. As estruturas progridem a partir do sujeito que tem uma referência normativa, que é o mandamento do amor (Ev. Jo 13,15). A revolução proporcionada por Cristo é a do amor e do serviço, que pode humanizar e harmonizar todas as estruturas constituídas pelo humano. 
Enfim, A revolução feita pelas realidades coisificadas leva à violência. O princípio dialético é de negação da verdade do outro, e não de abertura ao encontro e ao serviço. Formas novas de verdade devem ser construídas; reestruturas e sobrepostas a outras. A conversão confunde-se com uma ideia e toma forma espiritual porque tem seu fim. Não é o Reino de Deus que está próximo; é sempre uma utopia, ou seja, um não lugar. Diferente do cristianismo que tem o lugar definido para o encontro com a verdade, a revolução promovida pela ideia, que condiciona o humano, é um salto no que não sabemos que será humano. O humano será meio para o fortalecimento da estrutura, diferente da concepção cristã que deve condicionar o bem do estrutural ao bem do que é humano, centrando a história na dignidade da pessoa que é imagem e semelhança de Deus. Assim o seja!

 
Pe. Matias Soares
Pároco de São José de Mipibu-RN e Vigário Episcopal Sul da Arquidiocese de Natal.

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